sábado, 7 de agosto de 2010

O imaginário dos nossos sonhos




Alice no País das Maravilhas

Era uma vez uma menina que se chamava Alice.
Numa tarde de Verão, depois do almoço, Alice adormeceu e teve um sonho muito estranho. Viu um Coelho Branco, que corria e repetia sem parar:
- Vou chegar tarde, vou chegar tarde!

O coelho estava muito bem vestido e, ao vê-lo, Alice pensou que nunca tinha visto um coelho tão elegante ou que estivesse com tanta pressa.

Ficou curiosa e desatou a correr atrás dele. Tal era a velocidade a que o coelho corria, que a menina tropeçou e caiu numa toca, que mais parecia um poço sem fundo.
Depois de muitas voltas e reviravoltas no ar, Alice acabou por cair em cima de um monte de folhas secas.
Começou a procurar o coelho até que chegou a uma sala enorme, rodeada de portas fechadas.

Ao ver-se fechada desatou a chorar. Chorou tanto que as suas lágrimas formaram um charco enorme. De repente, o Coelho Branco passou por ali a correr, tão apressado que deixou cair o leque. Alice apanhou-o, abanou-se para se refrescar, mas como era um leque muito especial, a menina começou a ficar pequenina, muito pequenina...

... até que foi obrigada a nadar no charco de lágrimas.
E ficou espantada com o que viu. À sua volta estavam um rato, um papagaio, um pato, uma rã e uma águia bebé.

Quando conseguiu sair do lago, acabou por encontrar a casa do Coelho Branco. Este, muito nervoso, confundiu a menina com a empregada e pediu-lhe que lhe trouxesse as luvas e o leque.

Alice decidiu entrar e encontrou uma empada na cozinha. Como já estava com fome, decidiu comer um bocadinho. A empada era mágica e logo que engoliu a primeira dentada ficou pequenina como um rato.

Mesmo assim decidiu continuar o seu passeio, procurando também alguma coisa que a fizesse recuperar o tamanho normal. A meio do caminho, encontrou uma lagarta sentada em cima de um cogumelo quase tão alto como Alice. A lagarta fumava por um cachimbo muito estranho, chamado narguilé e disse à menina que o cogumelo era mágico e que podia recuperar o tamanho normal, se comesse um bocadinho. Alice decidiu prová-lo e como que por magia, voltou a crescer.

Alice voltava a ter o tamanho normal. Sentia-se muito feliz, por isso decidiu continuar a passear.
Ao passar por baixo de uma árvore viu um enorme gato em cima de um ramo, que lhe sorria. Tinha um sorriso de orelha a orelha e indicou-lhe o caminho que devia seguir, caso quisesse visitar a Lebre de Março.

Logo que acabou de falar começou a desaparecer, de tal forma que no fim, só ficou o seu sorriso. Será que alguém já tinha visto um gato a sorrir? Era algo tão estranho que Alice decidiu sair dali e ir visitar a Lebre.

A Lebre estava a dar uma festa no jardim. Os convidados eram o Chapeleiro e o Furão. Convidaram Alice para sentar-se à sombra, num enorme cadeirão e serviram-lhe uma chávena de chá e pão com manteiga.

Depois do lanche, e apesar de todos serem muito simpáticos e divertidos, Alice decidiu continuar o seu passeio pois queria voltar a encontrar o Coelho Branco.

Quando chegou a um jardim, Alice ficou pasmada pois viu cartas de um baralho que tinham cabeça, braços e pernas, como se fossem homenzinhos. Estavam muito atarefadas a pintar roseiras brancas de vermelho, pois as rosas vermelhas eram as flores preferidas da Rainha de Copas.

As pobres cartas estavam muito assustadas, pois, segundo diziam, a Rainha tinha muito mau génio e quando se zangava dava sempre a mesma ordem:
- Cortem-lhe a cabeça!
Sentiam muito medo apesar de ainda não conhecerem ninguém que tivesse obedecido a tal ordem.

O Valete de Copas tinha sido acusado de roubar pastéis. Foi levado a julgamento e Alice foi chamada a depor como testemunha. Como não sabia dizer se era culpado ou inocente - pois não tinha visto nada - a Rainha de Copas gritou, furiosa:
- Cortem-lhe a cabeça!

A menina ficou revoltada com tanta injustiça e disse-lhes que não passava de um naipe de cartas muito estúpido.
As cartas ficaram tão zangadas que começaram a esvoaçar e a cair em cima dela como se fosse chuva.
No meio de tanta confusão, Alice aproveitou para fugir e, quando deu por si, já tinha acordado do seu sonho!

Recuar no tempo...




Quando os vi passar, num tropel imponente, recuei no tempo...

Justas, torneios, cavaleiros corajosos, com expressões marcadas e firmes, debatem-se.
Numa época em que a guerra era constante, os cavaleiros nobres treinavam o combate,em tempo de paz.
Era considerado vencedor o grupo que em primeiro lugar conseguisse derrubar, com as suas lanças, os cavaleiros do grupo rival. Estes combates eram bastantes violentos, chegando a provocar feridos e mortes.
As justas eram combates em tudo idênticos aos torneios, mas em que apenas se defrontavam dois cavaleiros rivais de cada vez.
Estes combates atraiam multidões de espectadores e séquitos de nobres, às vezes acompanhados por centenas de familiares, pajens, tratadores de cavalos, escudeiros, armeiros e prostitutas.
Por volta do séc. XIV, os torneios tornaram-se eventos tão sofisticados que incluíam festas, bailes, banquetes...eram também excelentes ocasiões para jovens cavaleiros encontrarem beldades, filhas da aristocracia, selando alianças pelo casamento entre poderosas famílias feudais.

Pensamento

«Amar alguém ou alguma coisa é principalmente instalá-lo num clima de liberdade, com
todos os riscos que a liberdade comporta: desejar é limitar na liberdade; a nós e aos outros!»



Agostinho Silva

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sensibilidade

Estou sempre a ouvir falar em regras.
Regras de educação.
Regras no trabalho.
Regras no casamento.

Muitos dizem que se as regras não existissem...seriam mais felizes.
E falam na falta de liberdade que as regras limitam.
É tudo tão bonito de ouvir...

Mas eu falo em sensibilidade, em verdade.
Ser sensível com quem nos rodeia deve ser o nosso lema.
Ser verdadeiro.

Gosto de acreditar que ainda existem pessoas assim.
Mas a desilusão cresce dentro de mim.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Enfermaria nº6

A história contada por Tchekhov tem como personagem central o médico-chefe de um hospital que acabou sendo internado na ‘Enfermaria nº 6’, onde passaria a conviver com doentes mentais. Nessa enfermaria, que ficava anexa ao hospital, cinco pacientes eram supervisionados por Nikita, que os observa com todo o rigor e crueldade.

Um desses pacientes ocupava importante posição social, outro, um judeu chamado Moseika ficou demente aos vinte anos, quando sua oficina foi completamente destruída por um incêndio. Moseika é o único interno que tem permissão de sair do pavilhão e mesmo do hospital. Sai pelas ruas para mendigar, e quando retorna Nikita toma-lhe o dinheiro que recebia como esmola.

Ivan Dmitri Gromov , demente, chega a ser posto a ferros, como ocorria com os degredados. Sofria de mania de perseguição. Examinado pelo Dr. Ranguin, este o encaminha para a Enfermaria nº 6. O quinto paciente a ser internado foi ex-funcionário dos correios, que costumava a falar com Gromov das condecorações que dizia ter recebido.

O hospital era dirigido pelo Dr. Ranguin, que aspirava seguir a carreira teológica, mas foi impedido pelo seu pai, também médico, que insistiu para que o filho seguisse a sua profissão, intento que teve êxito. O Dr. Ranguin homem corpulento, com tom de voz baixo, movimentava-se com certa lentidão, e era, em muitos aspectos, uma pessoa contraditória. Não se vestia como médico, e demonstrava indiferença no que dizia respeito à sua aparência. Também acha o hospital é uma instituição imoral, que em nada contribuia para a saúde dos pacientes.


O trabalho do Dr. Ranguin era extenuante. Sentia-se cansado pelo trabalho e pela monotonia do hospital, que a cada dia era mais monótono. Achava que o seu trabalho como médico era inútil. Num dia atendia 30 pacientes, no outro 35, depois 40, num ramerrão terrível que abrangia meses e anos. Chegou a atender 12 mil pessoas num só ano. O Dr. Ranguin sentia que o seu trabalho era uma fraude.


A vida do Dr. Ranguin, já tomada pelo desânimo, sofre uma mudança expressiva: deixa de comparecer ao trabalho todos os dias, e quando vai hospital defronta-se com os mês aborrecimentos que o afligiam ao longo dos anos. Quando volta para casa dedica-se à leitura de obras de filosofia, biologia e história. Em determinado dia faz uma visita à Enfermaria nº 6 para conversar com o interno Gromov, o que viria a repetir-se por vários dias.


O Dr. Ranguin percebe que o doente mental, Gromov, é pessoa muito inteligente, e logo sente ser ele um bom parceiro para conversar. Essas repetidas visitas e as longas conversas como o interno Gromov começa a causar estranheza em todos os funcionários do hospital, até que o Dr. Khobotov percebeu que seu colega não estava bem de suas faculdades mentais. Depois dessa conversa, o Dr. Ranguin começa a notar que o tratam com estranheza.


Uma carta foi entregue ao Dr. Ranguin, que tinha como remetente o prefeito, que o convidava para uma reunião, e que parecia ser importante. Lá chegando encontrou, além do prefeito, o chefe da guarnição, superintendente do distrito escolar, um membro do conselho, o Dr. Khobotov e um outro médico. O Dr. Ranguin sentiu-se desconfortável ante essa recepção.


O Dr. Khobotov pergunta-lhe qual a data do dia da semana, quantos dias tem o ano; pergunta-lhe, ainda, se é verdade que o interno Gromov é um notável profeta. O Dr. Ranguin responde-lhe que se trata de um rapaz muito inteligente. Nessa altura dos acontecimentos o Dr. Ranguin já tinha percebido que o seu estado mental estava sendo submetido à prova.


Nesse mesmo dia, à noite, o chefe dos correios, vai até a casa do seu amigo, o Dr. Ranguin, para dar-lhe o conselho de que deveria sair de férias, que, segundo o Dr. Khobotov a viagem seria benéfica para sua saúde. Seu amigo não poupou esforços para convencê-lo a acompanhá-lo a Moscou, São Petersburgo e Varsóvia. Na sua volta encontra o Dr. Khobotov ocupando o seu lugar, facto que o levou a procurar outro lugar para alojar-se.


A Enfermaria nº 6, que é um dos contos mais longos de Tchekhov, termina de forma trágica: desempregado, o Dr. Ranguin não tem meios para pagar o aluguer, e seu destino acaba sendo a Enfermaria nº 6, na qual é internado na condição de doente mental. O Dr. Ranguin passou então a usar o roupão azul dos dementes da Enfermaria nº 6. A sorte, no entanto, não o abandonou: um ataque de apoplexia levou-o à morte, um dia após ter sido internado no pavilhão dos dementes. [Ver Anton Tchekhov, Mestre do Conto.]


Fonte: Pedro Luso de Carvalho

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Morena bonita...

Escolheu viver como queria




Entre meados do século XIX e o início do século XX os ocidentais parecem ter descoberto o deserto - ou pelo menos o romantismo do deserto, o apelo existencial do deserto. Rimbaud, Lawrence das Arábias, Isabelle Eberhardt, são apenas alguns dos que, talvez repugnados pelo spleen da velha Europa, descobriram uma outra vida.
Não serão muitas as mulheres que tiveram a força, ou sequer o desejo, de romper de forma total com as convenções do seu mundo naquela época - mudando de país, de religião, e, pelo menos na aparência, de género. Isabelle Eberhardt (1877-1904) morreu muito cedo, o que também não foi caso único entre estes viajantes de alma deslocada. Era filha de uma aristocrata luterana de família russa e de um anarquista de origem arménia, convertido ao Islão, que nunca assumiu a paternidade de Isabelle.
A própria mãe de Isabelle se converteu ao Islão, juntamente com a filha, quando de uma viagem ao Norte da África, em 1897. Isabelle já falava árabe desde os 12 anos. A sua mãe morreu nesse mesmo ano; Isabelle ficou na Argélia e, pouco depois, colocou-se ao lado dos nativos numa luta contra o domínio francês. Ao longo da sua breve vida, várias vezes se manifestou contra os colonizadores, o que foi mais um motivo para chocar a sociedade europeia da época e para que suspeitassem de que pudesse ser espiã.

Isabelle escolheu viver como queria. Para poder desfrutar da sua liberdade o mais possível, vestiu-se de homem (já o fazia, aliás, na Europa). Agora, com ambos os pais mortos e os irmãos encaminhados para um modo de vida tradicional, Isabelle instalou-se definitivamente no norte da Argélia. Trajando como um homem beduíno, viveu algum tempo como nómada, aventurou-se pelo deserto e participou na sociedade muçulmana, com o nome de Si Mahmoud Essadi, assumindo um modo de vida e uma fé (chegou a ter contactos com uma seita sufi) que sentia serem a sua vocação.
Em 1901 casou com Slimane Ehnni, um muçulmano de nacionalidade francesa, que dizia dela ser "a minha mulher Isabelle e o meu companheiro Mahmoud". Dessa forma, obteve ela mesma a nacionalidade francesa. Três anos mais tarde, Isabelle morreu subitamente, vítima de uma enchente do rio que fez derrubar a casa de terra batida onde acabara de se instalar. O marido sobreviveu três anos.
Isabelle deixou vários escritos sobre a sua vida - diários, relatos de viagem, ficção, e os artigos que publicou como repórter de guerra para o jornal Akhbar.
«Posso passar completamente despercebida por qualquer lugar, uma posição excelente para a observação. Se as mulheres não podem fazê-lo é porque a sua roupa chama a atenção. As mulheres foram sempre feitas para serem olhadas, e no entanto não parecem muito preocupadas com este facto. Creio que esta atitude dá demasiadas vantagens aos homens.»

Fonte: http://obviousmag.org/